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A chave do tamanho

Nadir Ferrari

Uma história fantástica, vocês verão!


O personagem principal é feminino. Chama-se Emília. Mal educada, espertíssima, mandona. As crianças identificam-se facilmente com ela. Aos seis, sete ou nove anos de idade, temos soluções fáceis para os problemas do mundo, não é? Basta querer resolvê-los, verdade? Por que os adultos complicam as coisas? Por que não se pode dizer tudo o que se pensa, sem pensar muito antes? É comum ouvir, de uma pessoinha dessas, propostas como esta: “Se eu fosse presidente (ou rei, ou governador) proibiria a má-educação”. Ou esta: ... “acabaria com as guerras”.

Pois bem, esta história veio a público em 1942, ano em que os submarinos alemães afundaram vários navios mercantes brasileiros e o Brasil entrou no bloco das nações aliadas contra a Alemanha, a Itália e o Japão. E Emília resolve, só e às escondidas, por um ponto final na Segunda Guerra Mundial e nas guerras em geral. Acaba conseguindo, por algum tempo, mas a que preço!...

Emília não é humana. Começou boneca de pano. Mas por razões que ninguém explica direito, evoluiu, transformou-se em uma criaturinha sui generis como gosta de dizer o Visconde. Ele por sua vez é um sábio, um pesquisador, criatura ponderada, qualidades que não o protegem, entretanto, das manipulações e do autoritarismo de Emília. Apesar, ou por causa, de suas idiossincrasias, os dois acabam conquistando as leitoras e leitores que, quando reencontram os outros personagens da história, os reconhecem de outras histórias de José Bento: Benta, Narizinho, Nastácia, Pedrinho e alguns bichos falantes.

Se a esta altura você está pensando que José Bento plagiou alguém, esclareço: ele é José Bento Monteiro Lobato.

A Chave do Tamanho é um livro de aventuras, é ficção científica, é super atual. A “galera” de pequenos e tamanhudos vai amar! Quem já leu há muito tempo vai gostar de reler e conferir as ilustrações.

Seguem-se alguns trechos, só para “botar água na boca” ou “adrenalina na veia:

...As viagens com o superpó eram instantâneas. Um fechar e abrir de olhos. Emília fechou os olhos lá no pedestal e abriu-os na porteira do sítio. Que colossal porteira, santo Deus! ...
Como atravessar a pé os cem metros do terreiro? Cem metros antigamente pouco significavam para a Emília “grande”, mas agora, ah, exigiam trinta e três mil, trezentos e trinta e três passos, visto como o seu passo se reduzira a três milímetros. Estava pensando nisso quando um horrendo monstro surgiu no terreiro: o pinto sura. _ Parece incrível! _murmurou ela. _ Aquele pinto que não passava de simples pinto como todos os pintos do mundo, desses que a gente chama com um _quit! quit! _ ou toca com um _chispa! _ virou um verdadeiro Pássaro Roca. Emília calculou que o pinto devia ter umas vinte vezes a sua altura... _Será possível que um monstro desse tamanho me enxergue? _ disse ela sem ânimo de atravessar o terreiro. Mas o pinto sura era um danado para enxergar. Tinha olhos de microscópio. Assim que Emília, pé ante pé, pôs-se a andar, ele a viu e veio de bico aberto para devorá-la...

...Emília lembrou-se logo das hortênsias, e com algum esforço viu que realmente havia caído em cima de um enormíssimo cacho de hortênsias. Era-lhe difícil manter-se ali, porque as criaturas humanas, dotadas de só dois pés, têm necessidade de superfícies planas para se equilibrarem, e naquele cacho de hortênsias só uma ou outra pétala estava em posição horizontal... _ O que me pareceu uma floresta não passa de um jardim. Um imenso jardim, o maior jardim do mundo, com roseiras da altura de árvores e aquele pé de jasmim com flores do tamanho de vitórias-régias, e na beirada dos canteiros uma grama que lembra os bananais do Cubatão. Como tudo ficou imenso, meu Deus!...
...Emília olhava em redor e ia compreendendo o mundo novo em que tinha de viver. À esquerda viu uma aranha sugando um mosquito preso em sua teia invisível. À direita um bando de formigas atracadas a uma pobre minhoca, que se debatia como um “S” vivo. Um filhote de louva-deus estava fingindo que rezava, de mãos postas, mas na realidade aquilo não era reza e sim um bote armado contra uma presa qualquer...

...Sim, era um balde velho na beira da calçada. Percebendo em redor dele agitação de insetos humanos, o Visconde aproximou-se pé ante pé. Ficou espiando atrás de uma moita de esporinhas. Que espetáculo maravilhoso! Um verdadeiro núcleo de civilização nova ia se formando...
...O visconde olhou e viu dois homenzinhos tocando um besouro – um puxava-o pelo cabresto, outro o empurrava...
...À beira da calçada um homenzinho de tanga, com ar de chefe, dirigia os serviços. Seu guarda-sol era uma folhinha de trevo... _ Eu era o doutor Barnes, professor de antropologia na Universidade de Princeton; hoje sou o dirigente desse grupo humano...
..._ Massa de papel _ respondeu o doutor Barnes. _ Encontramos no jardim um jornal velho. É um dos melhores materiais de construção de que dispomos. Note que tudo aqui é de papel ou massa de papel.
..._ E a alimentação? _ perguntou Emília. _ É o que menos me preocupa _ respondeu o doutor Barnes. No começo pensei no mel das flores; depois desisti da idéia. Há a dificuldade de chegar até as flores, sempre tão altas, e o perigo de nos expormos aos ataques das aves e vespas. E há ainda as estações sem flores. Depois de muito refletir, fixei-me nas minhocas como o alimento básico da Humanidade reduzida...

As crianças de hoje, habituadas aos livros didáticos livres de machismos, racismos e outros “ismos” graças às recentes avaliações organizadas pelo Ministério da Educação e Cultura, estranharão o discurso de Emília, que se refere à Tia Nastácia como negra beiçuda, ou burra. Isto não é motivo para desvalorizar a obra de Lobato, ou considerá-la datada. Ao contrário, além de outras qualidades, ela fornece uma boa oportunidade para os adultos – pais, professores, tios ou amigos dos muito jovens – de contextualizar, de problematizar concepções e estruturas sociais. Não podemos esquecer que o escritor fala a partir de um lugar definido, em um dado momento da história. Os valores, a moral e a ética não são universais, tampouco a - históricos.

Finalmente, faltam neste comentário uma síntese da história e a discussão de vários aspectos interessantíssimos, mas isto é proposital. É para não surrupiar ao leitor o prazer das descobertas que o livro proporciona. Mesmo porque a intenção do autor, revelada em sua correspondência, é tratar da relatividade: do mundo real contemporâneo, da humanidade “sub - humana”, das convenções, e de uma inversão de pontos de vista sobre o mundo.

Para quem quiser se aprofundar na análise da obra lobatiana recomendo uma publicação editada pela UNESP/Imprensa Oficial em 2008, presente na Biblioteca da Barca dos Livros.  Trata-se de uma coletânea de artigos,organizada por Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini, intitulada: Monteiro Lobato – livro a livro.  Pesquisa séria, deliciosa leitura, tanto para quem já leu as histórias e as rememora, como para quem ainda não leu e fica muito motivado a fazê-lo. Alguns artigos mostram as mudanças que ocorreram no texto, nas ilustrações e no formato, a cada nova edição. Outros contextualizam a literatura em sua época, ou evidenciam as visões pedagógicas ou políticas do autor. Outros ainda focalizam a narrativa e as estratégias de escritor e de editor de Lobato, suas preocupações didáticas e sua erudição.
No capítulo 27, que é sobre A Chave do Tamanho, Thiago Alves Valente afirma com propriedade: “Com efeito, a visão extra-humana pretendida por Lobato, numa descrição que nos faz lembrar do delírio de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, toca o universo da fantasia, no qual a mudança de tamanho ou de forma é um dos elementos fundamentais, como nos contos de fadas e em Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift.”

Monteiro Lobato. A CHAVE DO TAMANHO. Ilustrações de Paulo Borges. Editora Globo, 2008.

 


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