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1968 Ditadura Abaixo

César Félix, leitor convidado, é poeta e historiador.

Foi visitando a Barca dos Livros que tive conhecimento do recém lançado livro 1969 Ditadura Abaixoda jornalista Teresa Urban, 1968 Ditadura Abaixo, um livro de História, Arte e Jornalismo.

Publicado pela editora Arte e Letra, com arte gráfica e editoração de Diego Corrêa Martins e desenhos do artista plástico Guilherme Caldas, o livro, publicado no final de 2008 em Curitiba, pode ser considerado uma ótima novidade no mercado editorial. O leitor encontrará um conteúdo forte, porém sem peso, pois é um livro leve, gostoso de ler, bonito, informativo e de conteúdo histórico. Gostei do livro porque conta história com arte e faz arte contando história.

Falando nisso, antes mesmo de entrar propriamente nos comentários sobre o livro em si e sua colaboração para o mundo acadêmico e editorial, queria fazer um registro, um depoimento que não foge do assunto.
Esses dias estive pensando sobre o porquê do meu gosto pelas artes, de onde vem o meu prazer para a pesquisa e o estudo da História. Eu tinha tudo para não gostar de arte.

Quando criança, era obrigado a acompanhar minha avó à missa todos os domingos: nunca encontrei algo mais chato.

Na escola, a poesia me foi apresentada como obrigação, matéria de provas. Estudava na escola chamada Marechal Arthur da Costa e Silva e tínhamos aulas de Educação Moral e Cívica. As aulas de história eram compostas de uma montanha de datas e fatos que tínhamos que decorar.

Sempre a história dos outros, nunca estudamos nada sobre nossa história.
Isso ficava por conta de meus avós, que não cansavam de repetir histórias dos seringais de minha terra.

Minha aula de música era somente o Hino Nacional e o acreano que eu tinha de cantar todos os dias antes de entrar para sala de aula.

A professora de Português organizava, a cada 15 dias, um sarau, que era tão chato quanto as missas. Os poemas vinham prontos, não tínhamos o direito de escolher, era respeitado somente o gosto da professora. E lá ficávamos por horas, lendo poemas com que a gente não se identificava.

Decidi fugir de casa e sem contar nada para minha mãe fui conhecer o cinema, ficava no centro de Rio Branco. Consegui dinheiro vendendo umas panelas de alumínio para o ferro velho do seu Pedro, que também era sapateiro. Meu primeiro filme foi Paixão de Cristo, parecia que a igreja estava me perseguindo. O lado bom desse história foi que, pela primeira vez, eu via a imagem do homem de que  o Bispo Dom Moacir tanto falava, Jesus Cristo.

Certa vez, chegou a notícia da chegada na escola de dois novos professores, o policial Roberto Craveiro, que ensinaria Português, e o pintor (pois na época, pelo menos lá no Acre, ainda não se conhecia o termo artista plástico) Hélio Melo, que ensinaria Artes. Lembro-me como se fosse hoje: o professor Roberto tirava metade do tempo para ministrar aulas chatas e metade para nos contar histórias e brincar de futebol com a gente. Tudo escondido da dona Almira, a diretora da escola.

O professor Hélio Melo era um velhinho que tocava rabeca, declamava poesia e pintava quadros com tintas feitas a partir de folhas da floresta. Exímio contador de estórias, contava a estória dos répteis, das plantas, dos animais, dos peixes e estórias dos mistérios da floresta. Foi através dele que conheci o curupira, o boto cor de rosa, o caboclinho do mato e o saci. Lembro ainda hoje de uma reunião em que o professor Hélio Melo havia sido denunciado por contar estórias demais e dar aulas de menos.

Aulas oficiais e aulas escondidas: não me perguntem o que lembro das aulas oficiais. Lembro de todos os detalhes das aulas escondidas.

Hoje, passados 30 anos desses acontecimentos narrados, posso afirmar que o problema não estava somente na chatice das missas, na monotonia dos saraus ou nas mesmices e obrigações de decorar das aulas de histórias. O problema estava no jeito de mostrar os poemas, falar de Cristo e contar histórias. Talvez por isso eu tenha me interessado mais pela História e pela Arte de fora das salas de aula.

Aqui, quero voltar para o livro de Teresa Urban, que obedece a  uma metodologia que logo no início contextualiza historicamente o leitor. Não fica preso somente à história política, o que é comum em livros de história sobre esse tema, aborda e contextualiza o leitor em vários campos: o da moda, da música, da política, da economia e da literatura. Uma amostra de que a história é tão complexa e diversa quanto a vida.

A idéia de criar uma estória em quadrinhos para ajudar a compreender a história é interessantíssima, pois se consegue fazer o leitor visualizar como a história registrada nos documentos se materializa na vida e no dia a dia das pessoas.

A imagem bem tratada dos documentos dá credibilidade à história e aos historiadores, eliminando a possibilidade de a juventude achar que grande parte da história está apenas na cabeça “fantasiosa” dos professores de história. História e literatura complementam-se na busca da compreensão da vida.

1968 Ditadura Abaixo detalha o cotidiano do movimento estudantil de Curitiba, espaço de militância da autora em sua juventude. É uma valorosa contribuição para a história recente do país e sua publicação ganha em importância, principalmente se levarmos em conta os tempos atuais, quando os estudantes correm desesperados atrás de diplomas e empregos e o Movimento Estudantil, em sua grande maioria atrelado ao poder, foge da crítica e da responsabilidade de intervir politicamente nos rumos do país.

Após vários anos trabalhando com a arte da poesia e mergulhado na tarefa do ensino, não posso deixar de elogiar a iniciativa e a coragem que Teresa Urban e Guilherme Caldas tiveram no tocante não apenas ao conteúdo da história contada, mas, fundamentalmente, no jeito de se contar essa história.
Uma coisa que aprendi nos palcos foi que, para os olhos do público brilhar, é necessário que antes brilhem os olhos do artista. Nenhum professor irá fascinar seu aluno com uma matéria pela qual ele próprio não seja fascinado. Assim como eu aprendi a gostar de arte e de história fora das salas de aula, com professores que foram subversivos no seu modo de fazer história, nada impede que as crianças e os professores de hoje sigam o mesmo caminho.

Esse livro pode ajudar na caminhada.

 

URBAN, Teresa. 1968 Ditadura Abaixo. Editora Arte e Letra, 2008.


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