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Discurso do Urso                            


Monique Barbosa de Assis – Leitora convidada

Os meus fantasmas

‘Discurso do Urso’ traduz a visão de um pequeno ser que anda pelos canos dos prédios da cidade, mantendo limpa a tubulação e sentindo-se útil por sua função. No entanto, não se trata aqui de um ser qualquer, mas sim de um urso, que se diverte com os humanos e suas trapalhadas, mas que também se entristece quando os observa, cada um à sua sombra. Sente então pena e tem o ímpeto de acalentá-los.

Repleto de ilustrações tão vivas quanto o texto, narrado em primeira pessoa, este conto é, pela primeira vez, apresentado ao público infantil brasileiro, um texto em português do renomado escritor argentino Julio Cortázar. Para os adultos, ‘Discurso do Urso’ (título original: Discurso Del Oso) já integrava o livro de contos ‘Histórias de cronópios e famas’, sexto livro do autor e escrito num período de sete anos.
 A linguagem é sucinta e a narrativa é apresentada em vinte e seis páginas.
“Eu sou o urso dos canos do prédio”.

Quem constrói este conto não é uma barata, um escorpião, uma lacraia ou qualquer outro bicho que, como seria de se esperar, moraria dentro dos canos de residências. Esta é a história de um urso peludo, afável e profundo observador da natureza humana. Ele não tem nome. Não importa como se chama. É o urso dos canos do prédio e cumpre sua função dia após dia, sem pestanejar. Função esta que executa com agrado, afinal, ele não se sente prisioneiro por entre os canos; pelo contrário, sente que eles lhe proporcionam a liberdade das águas que, embora aprisionadas no encanamento das residências, sempre encontram o caminho aberto para a luz. Ele leva a vida dentro dos canos. Faz, no entanto incursões não só por eles, mas também pelos apartamentos dos prédios. É contemplando a vida das criaturas humanas que percebe como é livre.

‘Discurso do Urso’ vem sendo apresentado, bem como indicado pela mídia, como um livro infantil. Entretanto, discordo da maneira como se restringiu a faixa etária dos leitores. O livro vem sendo indicado para crianças de 9 a 12 anos e a função de um livro infantil pode até ser a de encantar as crianças através do fantástico, e Julio Cortázar escreve sobre o fantástico. No entanto, a figura do urso que anda por entre os canos não me parece ter intenções tão modestas, pois ela chama os leitores a uma profunda reflexão sobre o cotidiano. A fábula dialoga, deste modo, com todos nós.

Julio Florencio Cortázar (1914-1984) é um autor consagrado e considerado um dos mais inovadores de seu tempo. Argentino, Cortázar escreveu vários livros de contos e romances, sobretudo ‘O Jogo da Amarelinha’ e o já mencionado ‘Histórias de cronópios e famas’. O conto ‘Discurso do Urso’ foi escrito em 1952 e sua tradução para o Português é de Leo Cunha, mineiro e autor de mais de 30 livros, entre eles A menina da varanda.

A Emilio Urberuaga, artista plástico espanhol e ilustrador de livros infantis e juvenis desde a década de 1980, coube ilustrar as idéias filosóficas de Cortázar. Ilustrações, enredo e pensamentos que encantarão, sem sombra de dúvida, os profundos observadores de si mesmo de todas as idades.

 


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