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Os fantasmas de Eglê

(Artigo primeiramente publicado em O Balainho,
edição nº 16 - maio de 2003, sessão Armazém Literário.)

Tânia Piacentini


Os meus fantasmasEglê Malheiros é uma escritora bissexta, ou seja, publica pouco e com muito tempo entre um livro e outro. E quem perde somos nós, os leitores, uma constatação que seu último livro torna flagrante. Os meus fantasmas, publicado pela Editora Movimento, de Porto Alegre, é um desses livros que se lê em estado de graça, presos aos acontecimentos que nos surpreendem e envoltos pela sedução da linguagem de uma narradora experiente, ágil e ousada.

Trata-se de uma história, na verdade uma pequena novela, catalogada como literatura infantil e juvenil, com características que a filiam a melhor linhagem dessa produção no Brasil e permitem que se questione alguns dos pressupostos desse gênero literário, ao mesmo tempo em que reafirma a máxima de que a boa literatura agrada a leitores de qualquer idade. Escrita a pedido de um neto, que queria uma história de fantasma, a dedicatória engloba todos os outros netos e é também extensiva a três pessoas que presumo serem irmãos da autora, pois “compartilham os fantasmas”, e a Salim Miguel, marido e companheiro sempre. Desde a primeira leitura, comecei a ver a obra como uma espécie de “léxico familiar”, como um resgate da memória pessoal e familiar e um legado para a nova geração da infância, da cidade, da linguagem e cultura da época, dos valores éticos e políticos, muito bem trazidos para os dias atuais, onde se encaixam atualizados e reavivados.

De cara, o impacto, o estranhamento causado pela inversão que prenuncia quem é a protagonista da história, que não podia dormir direito por causa dos barulhos comuns do dia e se sentia mal à noite, quando saía para viver a sua vidinha, pela falta de sono. O suspense só é desfeito no terceiro dos nove capítulos, depois que os demais personagens já nos foram apresentados ou reapresentados, pois nos são familiares e mesmo velhos conhecidos: o Boi da cara preta que passa a ser o Cara -; a charmosa gata Leti, de batismo Laetitia Felix Catus; o cachorro Mito, de basto pêlo fulvo e o Negrinho do Pastoreio que, em busca de um nome que lhe conceda a digna cidadania, acaba por escolher chamar-se Dilvanino Espártaco Negrinho do Pastoreio. A líder é Momó, uma elegante, vaidosa e sábia fantasminha, elo atemporal, mítico. E é no cotidiano dessa turminha que tudo acontece, no vai-e-vem entre o real e a fantasia, o concreto e o imaginário, o passado que se torna presente porque eterno.

A narradora é uma cúmplice bem-humorada dos pequenos leitores e se encarrega de mantê-los atentos, atraindo-os com sutis digressões explicativas, respeitando a inteligência de todos através do desafio do vocabulário utilizado.

Sim, porque a ousadia maior talvez seja a da linguagem. Eglê usa um registro literário elevado e o mescla com a última gíria em voga nas rodas juvenis e na televisão, com o coloquial da gente comum e sem esquecer alguns regionalismos. As expressões papo furado, ledo engano, lufa-lufa, vir na volada convivem com dias de fastígio, soerguer a cabeça e claridade irridescente, além da sofisticada gradação chamar - invocar - solicitar - conclamar. Perambular e aboletar-se com o topar e o garrar a estrada, somados ao piscar de olhos para o leitor de Homero, com os dedos rosados da aurora e para o das revistas em quadrinhos e cinéfilos com o forte Tarzan. Ela nos leva a uma festa, presumo que ocorrida no fim do século XIX, ali no palácio da praça XV, e o vocabulário dos personagens é o da época, adequado ao conjunto verossímil do cenário e do enredo, e perfeitamente compreensível a qualquer leitor contemporâneo.

O recurso aí é a ironia, a caricatura e o pastiche. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados, mas basta resumir dizendo que a autora faz um verdadeiro passeio pelos diferentes registros da língua portuguesa e em nenhum momento é pedante ou inadequada, pois não carrega no erudito ou no literário nem faz concessões ao pobre tatibitate da linguagem supostamente infantil ou juvenil.

Vocabulário seleto e culto; personagens clássicos interagindo com gente comum numa história grande, com variação de cenário e época; metalinguagem e intertexto; nenhuma ilustração: eis aí algumas “anti-qualidades” que um manual de literatura infantil e juvenil apontaria para um texto. Mas só os manuais simplistas, graças a Deus! Os fantasmas de Eglê Malheiros nos reintroduzem nas melhores famílias de narradores, onde estão as boas histórias de todas as épocas e lugares. Só nos resta pedir que Mnemósina, a adorável Momó, musa dos artistas, continue inspirando Eglê e que outro livro venha logo.

 

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