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Para quem carrega um coraçãozinho na barriga...

  Gizelle Kaminski Corso

De onde vêm os bebês? Da cegonha? Da sementinha do papai plantada na mamãe? Perguntas bastante impróprias para os dias de hoje, pois as respostas constituem argumentos que não se sustentam mais. Narrar a chegada de uma criança é um tema bastante utilizado em livros infanto-juvenis, mas o que transforma um mesmo assunto em narrativa peculiar é o enfoque e a forma como é contado. Além de instigar as crianças, que percebem não virem os bebês da cegonha, tampouco de uma semente do papai - algo que pode conduzir a uma visão machista, o fato de uma criança vir ao mundo mexe principalmente com aquelas que já são mamães e com aquelas que estão com o primeiro filho ainda aconchegadinho na barriga. Un cuento que no es invento é o livro da colombiana Yolanda Reyes, que trata justamente desse tema, vertido para a língua portuguesa na tradução divertida, cadenciada e ritmada de Ruth Rocha. O título é um pouco alterado para manter a rima do original, Um conto que não é reconto (Mercuryo Jovem, 2008), substituindo a palavra invento (invenção, no português) por reconto para rimar com conto.
O que de fato encanta o leitor é a maneira como Reyes narra a vinda de uma criança; ao descobrir-se grávida, questiona-se a moça dona da casa: “Será que dá para perceber que eu agora tenho dois corações?” (s/p). A personagem sente-se mal, vai ao doutor, e ali descobre que já possuía “Um coração-bebê que soava como um trenzinho...” (s/p). Os pais são marinheiros de primeira viagem, e aceitam com muita alegria a vinda de um bebê para o lar. Além disso, a autora Yolanda Reyes não pretende explicar a proveniência das crianças, não entra em detalhes acerca da fecundação, muito menos cai na embolorada história da cegonha e da sementinha. Reyes apenas salienta que, em todos os lugares do mundo, “todos os bebês começam do tamanho de uma ervilha” (s/p). Quem abraçou a idéia da cegonha foi, infelizmente, a ilustradora Patrícia Gwinner, fazendo com que imagem e texto destoassem. fazendo com que se perca um pouco sua força de conjunto – texto, tradução e imagem. Teria a ilustradora inserido as cegonhas como uma provocação ao leitor? Gostaria ela de construir, paralelamente ao texto, outra versão da história? Com que intuito estariam as cegonhas voando pelas páginas, algumas delas com trouxinhas de bebê?
Apesar de tantas perguntas concernentes à ilustração, o livro não perde o seu mérito e recomendo a leitura. É uma história para agradar meninos e meninas.

Quem está esperando o primeiro filho vai certamente se deliciar com essa narrativa.

 

REYES, Yolanda. Um conto que não é reconto. Tradução Ruth Rocha. Ilustrações Patrícia Gwinner. São Paulo: Mercuryo Jovem, 2008.

 

 


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