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Entre peixes e nuvens

  Maria Teresa Arrigoni

Einar Turkowski, Estava escuro e estranhamente calmo. Tradução de Julia Bussius. São Paulo, Cosac Naify, 2009.
Original em alemão: Es war finster und merkwürdig still.
Título em espanhol: Estaba oscuro y sospechosamente tranquilo.

 

“Ilustrar é despertar um questionamento,
instigar a curiosidade para desvendar
 os mistérios incrustados
nas entrelinhas das palavras...”
(Márcia Széliga)

 

            Acontece do ato de ler ser um surpreender-se a cada página, a cada imagem, não é mesmo? Pode não ser corriqueiro, mas quando vivenciamos uma leitura assim, ficamos sem saber definir se gostamos, e o porquê; e pode nem ser tanto pela beleza ou complexidade do que lemos, mas pelo fato, simples ou não, de que ficamos suspensos no ar, literalmente nas nuvens. Foi o que me aconteceu ao longo do percurso diante de um livro que trazia este nome misterioso – Estava escuro e estranhamente calmo – numa tradução bem mais direta do título em alemão (já a tradução francesa optou por um título ancorado ao conteúdo da história: Le Pêcheur De Nuages, O Pescador de Nuvens).
O título por si só, pois, não nos diz muito sobre o que nos espera. Uma narrativa curta, minimalista: um homem chega e se instala em uma casa nas dunas. Logo desperta a curiosidade de todos. Vende peixes que ninguém quer comprar. Depois de observá-lo, vigiá-lo com todos os meios, passam a querer desvendar seu segredo. Mas quem é capaz de aprisionar nuvens e fazer chover peixes pode sumir de uma hora para outra. E enquanto os homens da aldeia tomados de inveja se ocupam em imitá-lo as próprias nuvens arquitetam a mudança que é fim e continuidade, que é surpresa.
            Comentamos, em geral, o conteúdo de um livro, seus personagens, a trama. Desta vez não. Quero tecer algumas considerações a respeito da ilustração e do ilustrador. Antes de tudo, devo dizer que não conhecia os desenhos de Einar Turkowski, e somente ao pesquisar sobre ele aprendi que foram suas as ilustrações que apareceram na capa e contra-capa do Anuário 2008  do Encontro Internacional de Ilustradores que se realizou em Bolonha, e no qual ele recebeu a medalha Hans Christian Andersen.
            Suas ilustrações utilizam somente o preto e branco, dispensam as cores,  o que configurou uma tendência que, segundo a ilustradora italiana Anna Castagnoli,  marcou presença naquele evento. As imagens de Turkowski surpreendem  tanto quanto, ou mais, do que a história narrada no livro. De certa forma, levando-se em conta, ou acrescentando por minha conta o elemento estranheza, valem as palavras de Marcelo Ribeiro (2008: 125):
A imagem arrebata o espectador de imediato, um impacto que, posteriormente, pode ser compreendido e lentamente observado, tendo em vista a pluralidade de seus elementos. 

            Habituados que estamos a ler palavras, o livro de Turkowski nos provoca, nos faz perder o contato com a palavra para lançar-nos na observação de seus desenhos. À medida que nos detemos neles descobrimos detalhes, percebemos rupturas, nos divertimos com a excentricidade que a página nos propõe. Se com Ciça Fittipaldi podemos dizer que         “escrita e imagem são companheiras no ato de contar histórias.” (2008:103), em algum momento deixamos a história de lado, capturados por essas imagens algo científicas, algo irônicas, e sobretudo muito detalhadas, precisas como máquinas que criam o non-sense que o texto conta e não conta.
            Parece que o autor nos diz a todo momento: minha arte é assim, o que não deixa de ser condizente com as palavras de Cristina Biazetto, quando afirma que “a ilustração não referencia somente os espaços do texto: ela reflete todo um universo e um modo de ver particular do ilustrador, que imprime em seu trabalho o seu conhecimento e sua experiência.” (2008: 75).
            Teresa Lima afirma que “aliar o gosto de ler com o de ver, num mesmo espaço que é o livro ilustrado, é de fato tornar o livro um verdadeiro objeto de prazer!” (2008: 200) e não posso deixar de concordar, mas na minha leitura Turkowski quis mostrar que a última palavra neste seu livro pertence às imagens.

 

Citações a partir de Oliveira, Ieda (org.). O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o Ilustrador. São Paulo, DCL, 2008.

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