Dentro da Noite
Maria Teresa Arrigoni
Proponho
uma inversão: antes mesmo de falar do texto
escrito, abordar as ilustrações. Ou
melhor, o pano de fundo, a edição. Predomina
o preto, na capa – bonita, misteriosa, nas páginas
– em que o branco rendado em dedos e o negro
dividem o espaço. A noite envolve o leitor.
E é uma ilustração que abre a
história. Uma ilustração noturna,
um vagão? Aponta desde já para a trilogia
de cores que vai se repetir: o preto, o branco e o
amarelo. No seu alternar-se, o ilustrador compõe
a sinfonia soturna que acompanha a história.
Mas diferentemente das obras em que as ilustrações
acompanham pari passo a narrativa, em meio às
palavras ou em seu redor, aqui elas nos proporcionam
uma pausa, nos obrigam a tirar os olhos da narrativa,
a parar de seguir a história para receber as
imagens, que se ampliam e aproximam como um zoom.
Rosas amarelas, uma moça pálida, o preto
da noite. O amarelo, o branco e o preto que nos envolvem
continuamente até o final.
Mas e o começo da história? Passageiros na noite vão se transformando nas personagens da narrativa que vai se desenvolvendo através dos diálogos de Justino e Rodolfo Queirós, o apaixonado por Clotilde. Mas essa paixão rememorada na escuridão do vagão (no qual um misterioso ‘eu’ tudo escuta enquanto “dorme profundamente” e tudo nos conta) vai se concretizando em um vício tenebroso, delineado a partir das falas de Rodolfo, descrevendo os braços de Clotilde e a “vontade de tê-los só para os meus olhos, de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los sofrer” (20).
O diálogo prossegue, a viagem do trem na noite chuvosa e escura, e nossa personagem revela esse vício que vai tomando conta a ponto de ele sentir o prazer de um orgasmo ao provocar a dor na pálida donzela e confessa a Justino seu tremor, querendo espetar um alfinete no braço de Clotilde, sorver-lhe o sangue “como a ambrosia do esquecimento”. Depois da perda da noiva sadicamente amada, o rapaz se volta às moças que passam pela rua, que param em algum lugar, as que pode alcançar com seu alfinete, metáfora sutil e dolorosa, matéria para psicólogos e leitores. Até que o esboçado ataque final permanece no ar como o som do sino “acordando a noite, enchendo a treva de um clamor de desgraça e de delírio” (64).
A história é curta, densa e reveladora. Vale a pena sentir-se presente naquele vagão escuro para acompanhar o relato do vencido que se entrega ao vício com o prazer e a culpa de um potencial serial killer, nem que seja para afirmar, como Justino: “Que horror!”.
Dentro da noite. João do Rio, Ilustrações de Andrés Sandoval. São Paulo: Girafinha, 2008.
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