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Deus e o Diabo nas veredas de Vila Cacimba

Tânia Piacentini

Mesmo sendo leitora de carteirinha da obra de Mia Couto, quando peguei seu último livro não fugi ao hábito de ler a orelha. Eu já estava decidida a comprá-lo, mas me concedi o prazer do rodeio que geralmente aumenta a vontade de mergulhar na leitura. Espero que a transcrição que faço aqui tenha o mesmo efeito para quem me lê agora:
 “Venenos de Deus, remédios do Diabo tem um pé fincado na vida cotidiana do Moçambique contemporâneo e outro no terreno mágico da poesia. A prosa inventiva de Mia Couto mais uma vez opera de forma magistral a mestiçagem entre a norma culta do português moderno e as variantes dialetais faladas pelas populações moçambicanas. A partir daí, materializa-se uma trama desenrolada em meio ao nevoeiro que encobre o casario e as almas de Vila Cacimba, pequeno lugarejo capaz de abrigar tremendos enigmas.

Bartolomeu Sozinho é um velho mecânico naval moçambicano da era colonial, agora aposentado. Vivendo num país já tornado independente de Portugal e saído de 30 anos de uma devastadora guerra civil, o velho está doente e muito certo de que vai morrer. Sidônio Rosa, o médico português que o atende em domicílio, faz o possível, porém, para inculcar-lhe esperança. Fraco como está, no coração de Bartolomeu se agitam lembranças e desejos que lhe saem da boca sob forma de histórias emblemáticas da trajetória de todo um povo, na melhor tradição da cultura oral africana. O que só nos faz lembrar de que estamos num país onde se diz que cada velho que morre é uma biblioteca que arde.

As histórias de Bartolomeu podem abrigar verdades e mentiras, umas embutidas nas outras, e revelam sabedoria na mesma medida em que podem destilar venenos. Em meio a essa neblina enganadora, move-se um perplexo Sidônio, que, em princípio, veio de Lisboa para curar Vila Caclmba de uma terrível epidemia. O médico, no entanto, traz impressa na carne seu verdadeiro móvel, a paixão pela desaparecida Deolinda, filha declarada de Bartolomeu e Mundinha, e pivô de uma fabulosa história de amores, falsidades e traições.”

Lendo o romance, foi fácil me lembrar de duas obras clássicas da cultura brasileira: o filme Deus e o Diabo na terra do sol, de Glauber Rocha e o romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Aquele mais pelo título, e esse pela linguagem, pelo ritmo, pelos mistérios da trama. E por falas que ganham a mesma força da célebre advertência de Riobaldo, “Viver é muito perigoso”.

Como não se envolver com personagens que dizem “Sonhar  me deixa muito cansado. Dá um trabalhão danado, sonhar. Cure-me de sonhar, Doutor.”? Como fugir da melancolia expressa em “As cartas, as cartas são o único barco que me restou.” Impossível não esboçar um sorriso diante da argumentação: “que faca corta um líquido? Só a faca da poesia.” Também o narrador nos enleia e retém em passagens como essa: “A idade é uma repentina doença: surge quando menos se espera, uma simples desilusão, um desacato com a esperança. Somos donos do Tempo apenas quando o Tempo se esquece de nós.”

Que se lê Mia Couto com a alma na mão, eu já sabia. Porém, dessa vez, a movimentação no mar da leitura foi maior. Muitas vezes parei para segurar minha alma, para que ela não se perdesse nas veredas ondeantes de Vila Cacimba... Mas valeu a pena e  recomendo a travessia.

Venenos de Deus, Remédios do Diabo. As incuráveis vidas de Vila Cacimba. Mia Couto. Companhia das Letras, 2008.

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