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A imigração japonesa no Brasil - Uma saga de 100 anos

Nadir Ferrari

Não é preciso entender o idioma para deliciar-se com a beleza da caligrafia japonesa abaixo de tudo que está escrito em português nesse livro de capa vermelha, quadrado só no formato.  É uma edição bilíngüe que conta a história fascinante dos brasileiros descendentes de imigrantes japoneses. O ano de 2008 é o centésimo depois da chegada do Kasato Maru, primeiro navio a trazer trabalhadores japoneses para nosso país. João G. Machado e Oscar D’Ambrósio contam com muito respeito essa história que apropriadamente chamam de saga.

Trata-se de um livro de história e de arte ao mesmo tempo. As razões que levaram tanto japoneses a deixar seu país de cultura milenar e vir desbravar um mundo novo vão aparecendo no livro, entremeadas de fotografias antigas e de reproduções de obras de arte. O momento por que passava o Japão, aliado ao contexto brasileiro de falta de mão de obra, levou à organização da propaganda que infundiu nos japoneses a ilusão de que poderiam vir ao Novo Mundo, ganhar muito dinheiro e regressar. Com o fim do feudalismo e a mecanização da agricultura, muitos japoneses do campo ficaram sem terra, sem emprego, e migraram para as cidades, gerando uma crise demográfica. Vir para o Brasil era então a alternativa.

Depois de uma longa viagem de navio, em acomodações de terceira classe, tinham que passar pela burocracia de revistas e exames antes de irem para as fazendas onde trabalhariam como colonos, em condições de muita dificuldade.  A história fala também do movimento contrário, no final do século XX, em que os descendentes de japoneses agora emigram para o Japão, para trabalhar, na esperança de lá ganhar dinheiro e regressar.

Trata também da contribuição japonesa para os esportes e as artes no Brasil. Só por essa parte já vale a leitura. De camponeses pobres, explorados e marginalizados, transformam-se, ao longo de três gerações, em uma comunidade de cerca de 1,5 milhão de pessoas, influente nos diversos setores de nossa sociedade.  O livro traz informações novas mesmo para quem conhece um pouco da trajetória desses que muito contribuíram para o desenvolvimento de nossa economia e nossa cultura.

As fotografias são auto-explicativas, mas os dados sobre as reproduções das obras de arte estão todas ao final, em uma extensa lista que dificulta a identificação. Seria mais interessante, e daria mais visibilidade aos artistas, que essas informações estivessem presentes como legendas em cada reprodução. Da mesma forma, seria interessante acrescentar, na legenda de cada fotografia ou no texto, informações sobre como foi obtida. Detalhes de revisão técnica.

Um dos muitos pontos altos na história: Da Hospedaria dos Imigrantes, estes [os imigrantes recém-chegados] iam de trem para as fazendas da café no interior do Estado. A realidade era mato alto. Sol a pino, pernilongos e camas de palha nos alojamentos. Era impossível juntar dinheiro, pois eram descontados de seus pagamentos as parcelas da dívida da viagem e os gastos com alimentos e remédios, obrigatoriamente comprados na própria fazenda. Era um sistema de semi-escravidão...

As ilustrações fazem do livro um belo documento e um objeto a partilhar. Depois de ler, tem-se a vontade de deixá-lo na sala, para ser apreciado de vez em quando por nós e pelas visitas. 

A Imigração Japonesa no Brasil – Uma Saga de 100 anos.   João G. Machado e Oscar D´Ambrosio. Noovha América.

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