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Sobre ilustrações e jardins

Maria Teresa Arrigoni

Se o objetivo de Rui de Oliveira ao preparar suas Reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens foi o de conquistar o leitor, posso dar meu testemunho pessoal: ele conseguiu plenamente!
Mas somente isso? Decerto que não! Sua proposta é a de percorrermos com ele as alamedas, os grandes canteiros, as discretas auréolas floridas, ouvindo os sons dos passos no chão de pequenas pedras, o canto dos pássaros, o burburinho das fontes. Onde estamos? Pois é, vamos adentrando pelos jardins de Boboli.
Para quem já os percorreu, impossível deixar de lembrar as surpresas com que nos deparamos a cada nova imagem de pedra que nos olhava, a cada desenho no verde, preparado para nos maravilhar. Na harmonia de sua concepção, como se cada um dos elementos: jardim, fonte, estátua, arbustos, alamedas quisesse marcar sua presença no tempo e no espaço em contraste com a cidade invasora, mesmo em se tratando de Florença.
Iniciamos assim nosso passeio pelo mundo da ilustração e percebemos outro elo – pelos jardins podemos passear nós leitores, quer sejamos conhecedores do tema, quer sejamos simplesmente viajantes em busca de novas metas.
Assim, logo de início, percorremos o texto de Ana Maria Machado que abre os portões para o que nos espera: pensar, repensar, debater a questão da ilustração dos livros para crianças no Brasil a partir de sua visão de autora, interessada em participar de uma nova perspectiva de se olhar para o livro a partir também das ilustrações e dos questionamentos acerca delas.
Percorremos as primeiras aléias e já nossos olhos se surpreendem com imagens que vão se apresentando e tomando conta dos cantos e dos meios.
Rui toma então sua pena e avisa “que estes textos não têm nenhuma pretensão de ser didáticos. São reflexões.” (p. 29) E uma das primeiras reflexões nos leva a considerar a possibilidade de “criação de um processo flexível para a leitura das imagens narrativas dos livros não apenas relacionando-as com o texto”. Não apenas como acessório ou complemento do texto escrito. Isso nos contam as imagens que de página em página vão surgindo, com autonomia, enchendo os olhos.
A esse ponto do percurso começam a aparecer também os outros ilustradores, do mundo todo, de muitas épocas. Evocados por Rui, apresentados, corporificados em verdadeiros links, num evidente convite (didático, eu diria) a se fazerem tantos desvios quanto são esses artistas que pertencem, como contemporâneos ou fundadores, ao mundo da ilustração.
Às suas reflexões Rui acrescenta uma quase-aula (uma vez professor...) que quer ser um esquema sugerido para “através de uma leitura estrutural, chegar às questões expressivas e simbólicas criadas pelo ilustrador” (p. 101) e assim temos a possibilidade de refletir sobre possíveis “decodificações” das imagens “a partir de elementos concretos existentes na ilustração”. E o Mestre acrescenta “sem considerar a sensibilidade e a subjetividade da leitura de cada um” (p. 102). É um momento para pensar a ilustração, adjetivá-la, percorrê-la, nomeá-la.
Bem, uma pequena amostra do que contém o livro de Rui já foi esboçada, e o leitor terá ainda, de lambuja, o texto “Como vejo a arte de ilustrar”, que o autor produziu para o Prêmio Hans Christian Andersen de Ilustração 2008.
Como se não bastasse, uma bibliografia e ainda referências a respeito das imagens citadas. Para terminar, a designer Ana Sofia Mariz assina o texto “Sobre o design gráfico dos Jardins” demonstrando como tudo neste volume foi cuidadosamente construído com a inspiração de Rui, e em torno da metáfora dos Jardins de Boboli.
É uma obra que certamente merece os prêmios que virão!

OLIVEIRA, Rui de. Pelos jardins Boboli. Reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens. Sâo Paulo: Nova Fronteira, 2008.


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