Os Gêmeos do Popol Vuh
Maria Aparecida Barbosa
Na esteira da magnífica organização de uma tradução do Popol Vuh do maia-quiché para o português, publicação da editora Iluminuras organizada por Gordon Brotherston e Sérgio Medeiros, que lhes valeu inclusive uma indicação para o rol dos 10 trabalhos de tradução indicados para o Prêmio Jaboti de 2007, temos agora uma edição resumida e facilitada, com belas ilustrações. A edição se reporta ao livro da Iluminuras em nota à página 78, na qual explica que a grafia dos nomes próprios, lugares e termos em maia-quiché e náuatle seguem a forma estabelecida no trabalho de Brotherston e Medeiros.
A cosmogonia é a história da origem de um povo. Do mesmo modo como o mundo cristão tem a Bíblia, os índios guatemaltecos escreveram o livro Popol Vuh, registando a origem do planeta Terra, de seu povo e do universo. A civilização pré-colombiana maia-quiché constituía, segundo o narrador em “para começo de conversa”, a nação mais poderosa da Guatemala no século XVI e, antes de serem praticamente dizimados, então, alguns sábios remanescentes fizeram os versos com os relatos cosmogônicos mais populares.
O Popol Vuh é um texto abrangente e belamente construído, e pode ser interpretado, de forma mais ampla, como referência para a cosmogonia do continente americano, registrada em outros textos igualmente clássicos, como o manuscrito Huarochiri dos incas (conhecido como o Popol Vuh dos Andes), o Watunna dos so’to caribes, o Ayvu Rapyta dos guaranis, o Dine bahane dos navajos, entre muitos outros, informa Rodrigo de Souza Leão numa resenha da revista on-line Zunái, de 2008.
Sem subestimar o valor literário inerente ao livro, saliento a relevância de resgates literários de valor identitário como este, pois exercem considerável influência política. Lembrando que ao ano de 1992, quando Rigoberta Menchú foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz e seu trabalho por justiça social e reconciliação étnico-cultural baseado no respeito aos direitos dos povos indígenas guatemaltecos se tornou internacionalmente conhecido, seguiu-se o ano internacional dos povos indígenas, e assim por diante. A repercussão de um resgate em geral não se faz esperar muito!
Voltemos, contudo, ao livro da SM, composto pelas extraordinárias ilustrações desse argentino muito experiente em trabalhos de ilustração infantil, Rojas. As cores são luminosas, os traços dos desenhos revelam e ilustram a narrativa escrita sem no entanto tudo desvendar, deixando em suas misteriosas inscrições muito espaço para a imaginação.
“O deus dual dos maias ainda não havia completado a criação.” Eis a introdução às histórias que contam como os semideuses gêmeos Han Ah Pu e X Balam Ke, encarregados de exterminar os três soberbos Vuqub Kaqix, Cipacna e Kaab r Aqan daquele mundo. Os gêmeos superaram uma longa série de lutas contras as divindades das trevas e contaram para tanto com o auxílio dos animais como seus aliados. A harmoniosa relação entre o homem e a natureza perpassa toda a saga. Uma ilustração desse vínculo é a gradual metamorfose pela qual passam os irmãos. Após o sacrifício, quando são queimados, seus ossos moídos são dispersos por vales e riachos. Ao tocarem o fundo do rio, os ossos moídos se transformam em dois belos jovens novamente que trazem nitidamente impressos nas feições a identidade e o destino. Ao mesmo tempo, na superfície da Terra o milho, planta associada à origem da civilização, germinou em forma de dois pés viçosos.
Os Gêmeos do Popol Vuh. Narrado por Jorge Lujá, ilustrado por Saúl Oscar Rojas, tradução de Heitor Ferraz Mello. “Cantos do Mundo”, Edições SM, São Paulo, 2008.
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