Um Livro de Horas. Emily Dickinson. Seleção, tradução e ilustração de Angela-Lago. (Editora Scipione).
Leia aqui dois comentários:

A primeira vez que vi e peguei Um livro de horas estremeci de emoção. A cor vermelha e a textura do tecido da capa atingiram ao mesmo tempo meus olhos e meus dedos e eu alisei muitas vezes frente e verso para prolongar o prazer tátil. Ao abrir as primeiras páginas, um verdadeiro momento de euforia se criou: as iluminuras encheram os olhos. A leitura dos versos de Emily na cadência brasileira das palavras selecionadas por Angela para manter e recriar o ritmo do primeiro poema aberto ao acaso completou o êxtase e desde então não me separei mais do meu exemplar. Da tradição medieval a ilustradora refinada resgata a exuberância, a riqueza dos detalhes, a paciência do rendilhado e as delicadezas dos tons e semitons das cores suaves. Tanta beleza, graça e dedicação reunidas são motivos para abrir meu livro todas as manhãs, depois de recitar ainda no escuro e de memória: “Sem saber quando virá o amanhecer/ eu abro todas as portas/ terá asas como um pássaro/ ondulará como as encostas?”
Como não sou egoísta, esse foi também o presente que mais ofereci, dividindo com outros o prazer de adentrar no jardim e no templo tecidos e abertos por Angela, a quem todos agradecemos a acolhida.
Tânia Piacentini
Um livro de horas para qualquer hora
Ou
Um livro de horas para todas as horas
Desde pequena, Angela-Lago declama poemas nas horas de aflição. Poemas, para ela, são uma espécie de oração, de zelo e consolo para a alma. Como preces, os poemas nutrem mentes, esculhambam pensamentos e coroam sentimentos de saudades, de calor, de frio, de dor, de alegria. Sensações tépidas, tórridas ou gélidas, não importa, são palavras, sons e imagens em harmonia.
Dos 1775 poemas de Emily Dickinson – encontrados em cartas e cadernos, portanto, sem títulos – Angela-Lago escolhe 24 para traduzir e nomeia-os a seu bel-prazer, intitulando a seleção Um livro de horas (Scipione, 2007). Ademais de selecionar e traduzir os poemas da autora norte-americana, Lago também foi responsável pelas belíssimas iluminações (mescla das palavras iluminura + ilustração), o que tornam o folhear das páginas um labirinto formado por ramos de flores, de inúmeras cores e espécies, cercando palavras em jardins...
A edição é bilíngüe, possibilitando, assim, aos leitores astuciosos a degustação dos poemas de Dickinson no original e, aos entusiasmados, a oportunidade da tradução de Angela-Lago na cadência da língua portuguesa, surpreendentemente ao lado.
Para A hora de esquecer, “Quando acabar, avise, por favor,/ Para que eu apague o pensamento!/Rápido! Enquanto você pulsar,/Vou lembrar mais um momento.” (2007, p. 17). Para a A hora em que tudo parece sem sentido, “Se ajudar um passarinho/ Que caiu de volta ao ninho,/ Não foi em vão minha vida.” (2007, p. 43). Para a hora pequenina, sem luz e do enigma, poemas. Para a hora da falta, sem remédio e para aquela que me chamarem de louca, poemas. Para as horas felizes ou tristes, poemas.
Com ou sem dilemas, poemas.
Gizelle Kaminski Corso
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